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Jornal do Commercio – 01.09.2008

A porta de entrada do mercado

Preparar um currículo não é fácil. Muitas lendas rondam o tema, mas o ideal é que a pessoa produza uma peça objetiva e clara sobre suas qualidades

Leonardo Spinelli
jc.com.br

Um currículo adequado é o primeiro passo para o mercado de trabalho, mas isso não quer dizer que seja uma tarefa fácil de ser concretizada. No mercado há muitos mitos acerca do tema, do que pode ou do que não pode ser inserido nos dados profissionais dos candidatos, se é adequado inserir foto ou assinatura no final do documento, sobre a quantidade informações... O fato é que as empresas exigem um currículo conciso, mas com informações abrangentes sobre a capacidade da pessoa e com informações claras, dispostas de forma lógica e, também, direcionadas para o cargo pretendido. “O importante é o candidato deixar claro o que ele pretende da empresa que está escolhendo para trabalhar. O que nós queremos é um trabalhador que se encaixe no perfil de nosso grupo”, opina a coordenadora de Recursos Humanos do Grupo Karne e Keijo, Juliana Reis.

Uma pesquisa realizada pela consultoria Right Management, com 34 headhunters (profissionais especializados em procurar talentos no mercado de trabalho) verificou que informações como o ramo de atividade exercido (88%), porte das empresas por onde já passou (68%), nome fantasia e razão social (65% e 41%) e tipo de produto trabalhado (29%) são as principais informações que devem constar num currículo. A partir das respostas dos entrevistados, a Right Management concluiu que a conjugação verbal impessoal é a mais adequada para redação do currículo.

Outra conclusão da pesquisa é que 70% das empresas não consideram adequado mencionar auto-avaliações subjetivas do tipo: “excelente relacionamento interpessoal”, “grande habilidade de liderança” etc. Sobre incluir a assinatura, 100% das respostas foram negativas, enquanto 15% consideram importante que, no documento, constem nomes para referências, 24% a prática de esportes, 58% ações de trabalho voluntário e 67% prêmios recebidos. Grande parte dos consultados (64%) considera que as viagens devem ser mencionadas apenas quando tiverem propósito de trabalho.

O estudo considerou a realidade de profissionais de nível hierárquico de gerência que não reflete diretamente as necessidades do mercado comum. A psicóloga Paula Targino de Souza, por exemplo, conta que no seu curriculum vitae não houve espaço para os prêmios que conquistou em sua carreira. O seu CV, aliás, com cinco páginas, também não seguiu à risca as regras da concisão. Nas informações ela priorizou sua formação, cursos, experiências profissionais e estágios desde a graduação. Deu certo. Foi contratada pela Fundação Roberto Marinho para dar consultorias temporárias na área de educação. “Usei a estrutura de currículo da Plataforma Lattes (lattes.cnpq.br), que tem um padrão voltado para o meio acadêmico. Mesmo assim, enxuguei as informações e direcionei-as para o mercado”, comentou Paula.

Mesmo não seguindo um padrão considerado ideal, Paula Targino acertou ao voltar suas descrições para o mercado em que estava focando. “De forma geral, fazemos triagem de currículos de acordo com a função pretendida”, comenta o diretor de RH da Planeta Bombom, Cláudio Maciel. O grupo que concentra 14 empresas e recebe mais de 300 currículos por semana, analisa as informações precisas e verdadeiras, objetividade e muito pouco de experiências anteriores. “Não adianta colocar muita informação e na primeira entrevista verificarmos que elas são falsas. Falar também de um curso de datilografia que fez há 20 anos também não interessa. O candidato tem de focar no cargo que pretende”, disse.
Renata Valença, gerente comercial da agência de intermediação de mão-de-obra Tradição, Talentos e Soluções, revela que empresas do varejo e de call centers, por exemplo, não se fixam em experiências anteriores dos candidatos. “As empresas preferem um perfil específico, como espírito de vendas, no comércio, ou boa fluência verbal nos call centers. As empresas querem moldar seus próprios profissionais.”

Como nada no mercado de trabalho segue uma só lógica, nem todas as empresas do comércio procuram profissionais “virgens”. A concessionária Citröen do Recife, por exemplo, vai inaugurar uma nova unidade em Afogados e iniciou a busca por profissionais de vendas e gerência. “Queremos profissionais experimentados, que já possuam experiência para tirar uma comissão de R$ 4 mil, R$ 5 mil. Para isso tem de ter, no mínimo, dois anos na área de vendas”, salientou o diretor da loja, João Urquisa.